quarta-feira, 23 de maio de 2018

"Museu da Descoberta" da Câmara Municipal de Lisboa

Agentes culturais contra a designação e missão do "Museu da Descoberta" da Câmara Municipal de Lisboa

Nós, profissionais do sector cultural e científico, juntamos as nossas vozes à recente carta pública assinada por mais de cem cientistas sociais.
Daniel Rocha
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DANIEL ROCHA
Neste momento é injustificável e extemporâneo que se crie o “Museu da Descoberta“ — se não se aproveitar esta oportunidade para refletir sobre o passado colonial português e as suas ramificações no presente; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa. Nós, artistas, curadores/as, historiadores/as de arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico, mas fundamentalmente cidadãos e cidadãs, juntamos as nossas vozes à recente carta pública sobre este tema assinada por mais de cem cientistas sociais.
Em repúdio de uma história anacrónica que assuma um ponto de vista unívoco e glorificador, o qual tem vindo a ser contestado em fundamentadas reformulações por múltiplas investigações académicas nacionais e internacionais, apoiamos a urgência da revisão dos termos ”descoberta”/“descobrimentos” e outros eufemismos (“primeira globalização”, “viagem”, “diáspora”, “interculturalidade”, “mar”, “lusofonia”) como o primeiro passo para uma discussão mais ampla e plural.O atual programa de governo da CML para um tal museu promove os seguintes objetivos: “uma reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspetos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura.” Tais objetivos só serão rigorosos se em diálogo com o crescente movimento de descolonização da memória histórica que tem vindo a ser operado a partir do sector cultural e científico e de movimentos anti-racistas, feministas, LGBTQI. Esta articulação requer compromissos estruturais no que concerne aos objetivos e modelo de gestão deste projeto que devem ser debatidos num fórum de alargada participação. Um projeto museológico inovador tem obrigatoriamente de passar pela construção e/ou pela ativação de redes de conhecimento e solidariedades institucionais, narrativas e contranarrativas em disputa, bem como memórias díspares, individuais e coletivas.
Um tal projeto museológico deverá considerar a forma como a dita “grandiosidade” da história de Portugal foi forjada com iniciativas de rasgo que de facto rasgaram e destruíram outros tecidos culturais e sociais, através de violência explícita ou insidiosa, cuja história e existência têm sido na sua maioria ignoradas. Ou seja, este projeto museológico, a ser exemplar de novos modos mais inclusivos de museologia e investigação, terá de ser assumidamente polivocal e capaz de abrir essa História à sua diversidade e complexidade, mostrando os aspetos obliterados por um olhar hegemónico — colonial e colonizante.
Dado que a história do império português implica diferentes comunidades em várias partes do mundo, e foi vivida de modos muito diferenciados que importa conhecer e integrar, um tal futuro museu deve privilegiar a inclusão e diversidade de narrativas e assumir as responsabilidades históricas que Portugal tem na configuração geocultural atual e estar à altura das reais trajetórias e rotas não só de encontro, mas também de colisão e de resistências várias.
A vontade de abraçar esta complexidade histórica já existe a vários níveis, e não só na academia, na sociedade portuguesa, seja no trabalho de diferentes grupos ativistas, seja no contributo que muitos artistas (de escritores/as a cineastas, de dramaturgos/as a artistas visuais e músicos/as) têm dado para uma maior consciência coletiva do passado colonial português e dos desafios à nossa frente.
1. Para além das dimensões científicas e tecnológicas deste período, que sejam contempladas de forma permanente e aprofundada em atividades de caráter temporário (exposições, debates, etc.) ou permanente temas como: o lugar de Portugal no tráfico mundial de pessoas escravizadas e os seus efeitos na economia global, nomeadamente na ascensão do capitalismo; a responsabilidade de Portugal na história do genocídio e etnocídio indígena nas Américas, assim como a responsabilidade dos índios na construção de formas plurais de relacionamento com os colonizadores; a história e os efeitos da construção ideológica luso-tropicalista; a forma como o termo "descobertas" alimentou ideologias políticas, entre elas a do Estado Novo; as várias dimensões do mar na história do imaginário político português, incluindo a dimensão do Atlântico Negro; a história da imposição de modos de sociabilização europeus em territórios colonizados; as relações económicas associadas ao comércio e a práticas extrativas disruptivas do ambiente e das culturas desses territórios; a dependência entre a história da construção do edificado monumental em Portugal e a extração de recursos e pessoas em territórios colonizados; a urbanização passada e atual das cidades e como esta revela uma profunda desigualdade de herança colonial; o papel da racialização na gestão do espaço imperial e as múltiplas formas de representação que contribuíram para essa racialização; a emigração para Portugal das comunidades africanas das ex-colónias antes do 25 de Abril e até hoje; o impacto decisivo da guerra colonial/guerras de libertação e da resistência dos povos; e, por último mas não em último, a história das múltiplas formas de resistência dos colonizados, incluindo dos seus principais agentes, materialidades e representações.Nós estamos disponíveis para contribuir num grupo de trabalho que debata um projeto museológico plural e questionador, não-hegemónico e desmistificador. Apesar de um projeto museológico ter necessariamente de ser realizado por um conselho científico e curatorial, e sem que este seja o lugar para enumerar exaustivamente as diretrizes de um tal projeto, consideramos indispensável que:
2. Se tenha em conta as repercussões desta história no presente, tais como: os nanoracismos (i.e.: os pequenos, mas impactantes, gestos e atitudes racistas que pontuam linguagem e ação quotidianas); as implicações da atual lei da nacionalidade no que diz respeito às pessoas afrodescendentes e outras questões relacionadas com a tomada em consideração da sua experiência e realidade social; a não inclusão das várias facetas da história do colonialismo no sistema de ensino português; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa.
3. Num momento em que por todo o mundo se questiona o papel dos museus como “tecnologias imperiais” e se discute a devolução de uma parte do património que os constitui e que é resultante da espoliação colonial, discordamos do uso de fundos públicos para promover um projeto acrítico e megalómano. Quando outros museus e instituições nacionais agonizam, urge perguntar que infraestruturas serão usadas, que espólios, acervos, objetos, etc. e a quem vão ser mostrados e para que fim.
Perderemos uma oportunidade histórica (e ética) se mantivermos uma nomenclatura de “descoberta” a propósito deste período histórico e não pensarmos uma metodologia adequada para este museu que esteja à altura de abrir um espaço novo capaz de articular crítica e criativamente, de forma informada, inclusiva e respeitadora da legitimidade das várias perspetivas e experiências que são a realidade da cidade de Lisboa e do país.
Por questões de espaço não foi possível incluir todas as assinaturas, a lista completa será publicada em www.buala.org
Primeiras assinaturas: Alexandra Lucas Coelho, escritora; Ana Balona Oliveira, curadora, hist. de arte; Ana Cristina Cachola, curadora; Ana Naomi de Sousa, cineasta; André E. Teodósio, encenador, actor; Ângela Ferreira, artista; António Pinto Ribeiro, curador; Bruno Leitão, curador Hangar; Carla Fernandes, jornalista, ed. Afrolis; Catarina Simão, artista; Cristina Roldão, socióloga, prof.; Djaimilia Pereira de Almeida, escritora; Filipa César, cineasta; Filipa Ramos, crítica de arte; Flávio Almada (LBC), músico, activista; Grada Kilomba, artista, escritora; Inês Beleza Barreiros, arqueóloga visual; Joacine Katar Moreira, activista, hist.; João Mourão, curador, Kunsthalle Lissabon; João Salaviza, cineasta; José Eduardo Agualusa, escritor; José Manuel dos Santos Maia, artista, curador; Jürgen Bock, curador, dir. Maumaus; Kalaf Epalanga, músico, escritor; Kiluanji Kia Henda, artista; Liliana Coutinho, curadora; Luzia Gomes, museóloga, prof.; Margarida Mendes, curadora; Maria do Mar Fazenda, curadora; Maria Paula Meneses, antropóloga; Maria Vlachou, curadora; Mariana Silva, artista; Marta Lança, investigadora, ed. BUALA; Marta Mestre, curadora; Mamadou Ba, tradutor, militante anti-racista; Natxo Checa, curador, ZDB; Nuno Lisboa, cineasta, curador; Nuno Faria, curador CIAJG; Pedro Lapa, crítico de arte, prof.; Pedro Neves Marques, artista, cineasta, escritor; Pedro Pinho, cineasta; Tiago Mota Saraiva, arquitecto; Raquel Schefer, cineasta, investigadora; Regina Guimarães, escritora, cineasta; Renée Nader Messora, cineasta; Rita Fabiana, curadora; Rita Natálio, artista, investigadora; Rita GT, artista; Ruth Wilson Gilmore, prof. CUNY/Maumaus; Salomé Lamas, cineasta; Sandra Vieira Jurgens, curadora, hist. de arte; Susana Sousa Dias, cineasta; Vasco Araújo, artista; Zia Soares, actriz, Teatro Griot
Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico 
  1. nunos
      cotovia 
    Penso que a intenção não assumida destes agentes culturais é a de fazer uma espécie de Museu do Holocausto, aplicado à escravatura.
  2. Será que não se apercebem que essa facilidade com que assumem o direito unilateral de ocuparem vastas áreas dos países de acolhimento tem por contraponto a incapacidade de construírem nos seus países de origem essas condições, sobretudo devido à corrupção e xenofobia das elites que se apropriaram indevidamente dos recursos e do poder militar, exercendo sobre os seus congéneres um regime de genocídio social e étnico igual ao da escravatura, com esgotos a céu aberto e ampla miséria à vista de todos?
  3. Será que não se apercebem da agenda política, explicita em documentos concretos de Política Externa de vários Países, de aproveitamento dos países de acolhimento para obterem vantagens económicas, sociais, e culturais inexistentes nesses países? Será que não se apercebem que o método da acusação permanente e sistemática dos países de acolhimento tem por objetivo reivindicarem esses subsídios e vantagens económicas? Será que não se apercebem que essa facilidade com que assumem o direito unilateral de ocuparem vastas áreas dos países de acolhimento tem por contraponto a incapacidade de construírem nos seus países de origem essas condições, sobretudo devido à corrupção e xenofobia das elites que se apropriaram indevidamente dos recursos e do poder militar, exercendo sobre os seus
  4. A Escravatura e o Colonialismo não têm nada a ver com os Descobrimentos Portugueses. Os Descobrimentos (quaisquer que eles sejam) ocorrem no momento da Descoberta. E nesse momento não há qualquer escravatura ou colonialismo, porque ainda não tinha lá chegado ninguém. Como é que no momento de um Descobrimento (seja do átomo ou de um local) pode haver uma coisa anterior feita pela Pessoa que descobre? Só quem não está no seu perfeito juízo, ou está cego por uma qualquer ideologia ou intuito a priori, pode afirmar um disparate desses.
  5. O Património é um assunto crucial para a Identidade de uma Nação e de um País. Porquê tanto ódio a Portugal, e ao legado que o construiu? De onde vem essa ideologia xenófoba, quase-fascista e neocolonialista que quer impedir que se faça um Museu da História de Portugal e um Museu dos Descobrimentos Portugueses? Ninguém impede que adquiram o estatuto de uma outra qualquer Identidade/Nacionalidade. As portas estão abertas à possibilidade de rejeitarem Portugal e o seu legado patrimonial. Se não querem construir Portugal porque não vão para o sítio que querem construir?
  6. Continuo a ver com pena a transformação do Público numa espécie de folha informativa do BE.
  7. Tanto paleio e nenhuma alternativa ao nome... Sim, Portugal foi um país colonizador, esclavagista, torturador e por aí fora. Mas o termo descoberta não anula, necessariamente, esses aspectos (é assim que se escreve, já agora, se se quer romper com o tal papel de colonizador). A verdade é que Portugal, colonizador, esclavagista e torturador foi, efectivamente, também descobridor... Como Curie descobriu a radioactividade, como Jenner consolidou a descoberta da vacinação, como Tombaugh descobriu Plutão, etc... E se os objectivos do museu incluem, como afirmado, a reflexão sobre os apectos "menos positivos" (eufemismo óbvio para "negativos") não vejo porque há-de ser a designação a obviar a que se faça isso mesmo, reflectir sobre esses aspectos, em vez de discutir palavreado.
    1. Basta ler este texto, explica bem porque é que a designação "descobertas" é pouco rigorosa, anacrónicoa e até glorificadora. E, como tal, deve ser evitado.

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